Abertura do Maximídia 2006/televisão digital
Boni joga balde de água fria na televisão digital
Embora tenha dito que não pretendia "jogar um balde de água fria" nas expectativas que existem em relação à adoção da televisão digital no Brasil, foi justamente o que José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, sócio da TV Vanguarda e ex-vice presidente da Rede Globo, fez na abertura do Maximídia 2006. Numa meticulosa exposição, o empresário derrubou vários argumentos favoráveis à tecnologia, revelou mitos que a acompanham e projetou uma elevação de custos em toda a cadeia produtiva do setor, que vão afetar o bolso dos produtores, transmissores, anunciantes e até dos telespectadores. Além disso, previu o "engessamento" da atual estrutura de programação, pois o modelo tecnológico adotado no País - um híbrido do japonês com tecnologia local - não abre espaço para novas emissoras. "Essas transições tecnológicas são bem-vindas e inevitáveis. Mas não são tão simples quanto parecem", afirmou.
E mesmo que ela ocorra como planejado pelo governo, talvez não traga para a realidade todas as promessas que carrega. "O impacto da televisão digital será muito menor do que foi a virada para a televisão colorida", disse Boni, que abriu sua palestra com imagens do apresentador Chacrinha. "Eu não vim aqui para explicar, mas também não quero confundir. Vim para analisar e refletir", disse, adaptando o bordão do Velho Guerreiro.
A discussão da televisão digital, segundo Boni, começou errada. "Ninguém perguntou para o telespectador se ele está satisfeito com o conteúdo que ele recebe. Melhora o som, melhora a imagem, mas a programação vai permanecer a mesma", diz. A vantagem do modelo híbrido, segundo o executivo, é a chamada portabilidade - ou a possibilidade de levar o sinal para equipamentos móveis. A desvantagem é que ele, na prática, ainda não se mostrou viável. "Vamos precisar de muito trabalho de laboratório ainda", diz. O problema é que os testes feitos até agora utilizaram um padrão de compressão que não é adotado no País. "Na verdade, o Brasil tem um padrão de televisão digital que não existe".
Boni exibiu uma série de depoimentos de anunciantes, publicitários e executivos de veículos sobre o futuro da televisão, para então começar a descortinar seus próprios argumentos. Segundo ele, o impacto inicial da adoção da tecnologia digital será na produção - algumas emissoras já fazem captações em equipamento avançado. O problema, para Boni, é que dificilmente o ritmo da produção televisiva, necessariamente acelerado, vai permitir que toda a qualidade disponível seja aproveitada. "O som dolby, por exemplo, é muito difícil de trabalhar em TV, a não ser em comerciais. A finalização é um processo muito difícil e demorado".
Outro problema é a questão dos formatos (a televisão analógica trabalha na proporção de 4 por 3, enquanto a digital é 16 por 9). "Vai ser um tal de tarja preta embaixo ou nos lados da tela". Não bastasse isso, Boni diz que a televisão será, durante um longo tempo, recebida de maneira analógica pela massa de telespectadores, mesmo que sua emissão ocorra de maneira binária. "O sinal vai passar pelo set top box (conversor). Não haverá um benefício evidente na qualidade da imagem".
Existem hoje, no Brasil, 50 milhões de aparelhos analógicos, que terão de ser substituídos pelos digitais para que o ciclo se complete, já que os aparelhos analógicos com conversores acoplados apenas simulam a experiência digital. "Só quem vai se beneficiar é a indústria de aparelhos de televisão", diz Boni. A própria adoção do set top box tem uma barreira, que é especialmente crítica no mercado brasileiro: o custo. "Um equipamento desses custa entre US$ 100 e US$ 140. Os Estados Unidos imaginaram que iam chegar a 2006 com 85% de televisores com conversores. Chegaram a apenas 17%".
Esse custo vai certamente estender a vida da televisão analógica, acredita o executivo. O governo prevê que, em dez anos, o sinal não-digital seja desligado. "Pode multiplicar por três esse tempo, mesmo considerando que o brasileiro é ávido por tecnologia", aposta. Além disso, o modelo de negócios depende de regulamentação, o que necessariamente passa por decisões políticas. "Essas coisas andam rápido no Brasil", ironizou o empresário.O custo para as emissoras também não é nada desprezível, segundo seus cálculos. "Um gerador digital de alta definição (HDTV) custa US$ 6 milhões. A Globo tem mais de 100 emissoras, o que significa um investimento de US$ 600 milhões, o que não inclui as retransmissoras, que são mais de 3 mil. Ou seja: serão precisos alguns bilhões de dólares."
A produção também vai ficar mais cara. A Europa, segundo Boni, abriu mão da freqüência de 6 MhZ, adotada pelo Brasil, justamente para não elevar os custos. "Consideraram muito caro para a Europa. Os especialistas chegaram à conclusão que só o Brasil teria condições de usar esse sistema", brincou.
Boni também jogou água fria nas promessas de interatividade. "Nesse ponto, a televisão digital não oferece nenhuma vantagem em relação ao analógico", disse. E explicou: "Para a interatividade, é preciso uma via de duas mãos, que não vai existir. O contato com a emissora ainda vai depender da telefonia ou da internet, como ocorre hoje". O chamado T-commerce - comércio pela televisão - também não tem grande futuro, segundo ele. "Vamos supor que seja possível comprar a camisa que o ator está usando na novela. Como eu vou fazer a compra? Eu preciso parar de assistir o programa. E imagine que 5 milhões de pessoas queiram fazer a compra. Não existe logística para isso."
O comportamento humano vai atrapalhar outra quimera dos especialistas: a convergência. "Haverá convergência, sim. Mas é um fenômeno limitado. Há seres humanos passivos, que não querem mandar um e-mail enquanto assistem à televisão", disse o empresário. O casamento da televisão com o computador, aliás, será bastante conflituoso, segundo ele. "Sentar no computador é um hábito de solidão, enquanto ver televisão é uma prática social. Eles são complementares, não vai haver uma convergência entre eles".
Fonte: Meio e Mensagem



0 Comments:
Postar um comentário
<< Home